Participantes

   
Cleide Bomfeti Professora/Orientador
Jairo Lisboa Professor/Orientador
Henrique Ganem Aluno/Bolsista

 

Introdução

    A água constitui uma necessidade fundamental para a manutenção da vida. Porém sabe-se que a água destinada ao consumo humano pode representar um risco potencial para a saúde da população devido a possibilidade de ocorrência de patógenos e contaminantes químicos na água coletada em nascentes, rios e cisternas.

    Os problemas relacionados à qualidade da água são muitos em todo o mundo. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que 25 milhões de pessoas no mundo morrem por ano devido a doenças transmitidas pela água. Estima-se que ocorram mundialmente cerca de 900 milhões de casos de diarréias e aproximadamente dois milhões de óbitos infantis, por ano, associados ao consumo de água contaminada (Zancul, 2006). A OMS indica que nos países em desenvolvimento 70% da população rural e 25% da população urbana não dispõem de abastecimento adequado de água potável ─ 1,7 bilhões de pessoas no ano 2000 ─ (Tundisi, 2002; Zancul, 2006). Por isto, nos países em desenvolvimento, as doenças diarréicas de veiculação hídrica, como por exemplo, febre tifóide, cólera, salmonelose, shigelose e outras gastroenterites, poliomielites, hepatite A, verminoses e giardíase, têm sido responsável por vários surtos epidêmicos e pelas elevadas taxas de mortalidade infantil relacionadas à água de consumo humano (Freitas et al., 2001).

    No Brasil, os serviços de água e esgoto são ainda precários, o que poderia explicar o ressurgimento de enfermidades e a incidência de óbitos provocados por doenças de veiculação hídrica. Dados de 1995 indicam que 76 % dos domicílios existentes no país estão conectados a rede de abastecimento de água, sendo a cobertura mais elevada na região sudeste. Cerca de 50% do volume da água utilizada no país é proveniente de rios e 30% advém de lagos, lagoas e açudes. Em diversas localidades, a qualidade da água produzida não atende ao padrão de potabilidade vigente no país (Zancul, 2006).

    Nos vales do Jequitinhonha e Mucuri, 92% da população não contam com água canalizada. O levantamento foi feito em18 mil domicílios de 308 municípios das 11 divisões de Minas, entre junho e novembro de 2009 pela Copasa Serviços de Saneamento Integrado do Norte e Nordeste de Minas Gerais (Copanor), o que demonstra o risco que essas populações estão expostas.

    Deve-se ressaltar, que o Vale do Mucuri, localiza-se no semi-árido Mineiro, com uma população total de 430.332 habitantes, distribuídos em 27 municípios, o que corresponde a 11,90 % da população do semi-árido brasileiro. Predominam os municípios de pequeno porte, que possuem infra-estrutura urbana deficiente e níveis mais baixos de qualidade de vida, com economias locais baseadas nas atividades agropecuárias e extrativistas. Os indicadores sócio-econômicos demonstram o estado de precariedade da região: o IDH – Renda média dos municípios que compõem este território é 0,55 e situa-se muito abaixo da média estadual que é de 0,71. A esperança de vida ao nascer da população dos municípios da região é em média de 64 anos de idade e reflete as condições de saúde e salubridade do ambiente. E ainda, 42% dos municípios deste território encontram-se entre os 50 municípios com os piores índices de desenvolvimento humano do Estado de Minas Gerais (Amuc, 2010).

    As iniciativas de potabilização da água de consumo humano se deram antes do estabelecimento de padrões e normas de qualidade (Usepa, 1999). Entende-se como água potável àquela isenta de contaminantes químicos e biológicos, além de apresentar certos requisitos de ordem estética. Análises químicas feitas com materiais do ambiente são importantes para prover informações sobre espécies químicas em um determinado meio, incluindo o teor de oxigênio dissolvido na água, o seu pH e o nível de turbidez (CONAMA, 1986). Entre os contaminantes biológicos são citados ─ coliformes totais dos gêneros Escherichia, Citrobacter, Klebsiella e Enterobacter, tendo como principal representante a Escherichia coli, de origem exclusivamente fecal, também, cianobactérias, vírus, protozoários e helmintos (Souza, 1983).

    No Brasil, a normalização da qualidade da água para consumo humano foi iniciada na década de 70. As normas de potabilidade têm-se apresentado como um instrumental técnico-jurídico elaborado pelas autoridades sanitárias, com apoio de instituições técnico-científicas (Freitas e Freitas, 2005). Tais normas constituem-se como referências técnicas que imprimem padrão de qualidade ao “produto” água, seja ele obtido diretamente da natureza (sem tratamento) ou por meio de processos químicos (MS, 2004).

    A primeira norma de potabilidade foi criada no Brasil pelo decreto federal nº 79.367 de 9 de março de 1977, que estabeleceu a competência do Ministério da Saúde sobre a definição do padrão de potabilidade da água para consumo humano, a ser observado em todo território nacional, por meio da portaria nº 56 Bsb, publicada em 14 de março de 1977 (Freitas e Freitas, 2005). Atualmente, vigora a Portaria nº 518, de 2 de março de 2004, que estabelece os procedimentos e responsabilidades relativos ao controle e vigilância da qualidade da água para consumo humano e seu padrão de potabilidade revogando então, a Portaria nº 1469, de 29 de dezembro de 2000 (MS, 2004).

    A Portaria nº 518 determina que a água potável deverá estar em conformidade com o padrão microbiológico, isto é, apresentar ausência de E. coli ou coliformes termotolerantes em volume final de 100 mL, quando a água for utilizada para consumo humano. De modo semelhante, em águas tratadas no sistema de distribuição ─ reservatórios e rede ─ E. coli e coliformes termotolerantes também deverão estar ausentes, em igual volume (MS, 2004).

    A Portaria nº 518 também ressalta que, pode-se tolerar em amostras individuais procedentes de poços, fontes, nascentes e outras formas de abastecimento sem distribuição canalizada, a presença de coliformes totais, na ausência de E. coli e, coliformes termotolerantes. Em tal situação, deve-se investigar a origem da ocorrência, e, tomadas providências imediatas de caráter corretivo e preventivo sendo realizada nova análise de coliformes (MS, 2004).

    O Ministério da Saúde (2004) determina que, para a garantia da qualidade microbiológica da água, em complementação as exigências relativas aos indicadores microbiológicos seja observado o padrão de turbidez. O padrão de turbidez para a água pós-filtrada ou pré-desinfectada, deverá apresentar valor máximo permitido de 1,0 UT (unidade de turbidez) para água subterrânea e água submetida a filtração rápida e, 2,0 UT em 95 % das amostras tratadas pela técnica de filtração lenta (COPASA, 2004).

    Outra avaliação empregada para garantir a qualidade da água para consumo humano é a determinação do potencial hidrogeniônico (pH), utilizado universalmente para expressar o grau de acidez ou basicidade de uma solução. As medidas de pH são de utilidade, pois fornecem informações preciosas a respeito da qualidade da água. O pH é influenciado diretamente pela quantidade de matéria orgânica morta a ser decomposta, sendo que quanto maior for a disponibilidade de tal matéria, menor será o pH. Portanto, uma das razões para remover a turbidez da água destinada à ingestão é que a mesma pode estar associada com a presença de microrganismos (CONAMA, 1986).

    Além da presença de microrganismos, diversos compostos ou elementos químicos podem influenciar a qualidade da água e, assim são importantes para a saúde humana sendo, cada vez mais encontrados em água de poços. O nitrato ocorre em baixos teores nas águas superficiais, mas pode atingir altas concentrações em águas profundas. O seu consumo, por meio das águas de abastecimento, está associado a dois efeitos adversos à saúde ─ indução a metemoglobinemia, especialmente em crianças e a formação potencial de nitrosaminas e nitrosamidas carcinogênicas (Bouchard et al. 1992). Outro elemento importante a ser considerado é o alumínio, composto neurotóxico que, a longo prazo, pode causar encefalopatia grave em pacientes que sofrem diálise renal, podendo levar a distúrbios neurológicos (Freitas et al., 2001). Apesar da concentração de alumínio na água ser controlada por aspectos organolépticos, existem controvérsias sobre o papel deste metal na incidência do mal de Alzheimer (Perl, 1988). A água pode também, ter um excesso de íons ferro e manganês dissolvidos uma vez que não se tem oxigênio suficiente para oxidá-los e precipitá-los. Para a saúde, a exposição muito intensa a excesso de manganês afeta o sistema nervoso, provocando uma doença degenerativa, conhecida como doença de Parkinson, cuja característica é a perda de coordenação.  A absorção excessiva de ferro leva ao acúmulo destes íons nos tecidos, que pode ser acompanhada de formação de pigmentação bronzeada na pele, conhecida como hemocromotose, além de distúrbios hepáticos (CONAMA, 1986). Os metais em altas concentrações são tóxicos e podem expressar-se de forma aguda ou crônica. Dentre os mecanismos de toxicidade dos metais estão incluídas as interações com o sistema enzimático e com membranas celulares (Goyer, 1986). Do ponto de vista ecológico, oxigênio dissolvido na água é uma variável extremamente importante, haja visto que a maioria dos organismos vivos necessita dessa substância para respiração.

    Também, a presença de oxigênio dissolvido na água é de importância direta para o equilíbrio do ambiente aquático e de importância indireta para conferir qualidade à água quanto um produto de uso do homem (CONAMA, 1986). 

    Apesar de possuir uma norma de potabilidade desde 1977, a vigilância da qualidade da água para consumo humano só foi implementada no Brasil como um programa a partir da criação do Sistema Nacional de Vigilância Ambiental em Saúde (Funasa, 2002).

    Freitas e Freitas (2005) mostraram em seu estudo que somente 19 % dos Estados realizam avaliações sistemáticas da vigilância da qualidade da água, visando à redução da morbidade e mortalidade das doenças de veiculação hídrica. Nesta mesma pesquisa, foi possível concluir que a portaria nº 518 se encontra parcialmente implantada nas unidades da federação, necessitando que haja maior empenho em todos os níveis de governo para que se efetivem as ações da vigilância da qualidade da água para consumo.

    Segundo dados fornecidos pela COPASA (2004), para construção de um sistema completo de abastecimento de água são necessários muitos estudos e pessoal especializado. Para iniciar-se os vários trabalhos, requisitos deverão ser definidos, tais como ─ população a ser abastecida, taxa de crescimento da cidade e, suas necessidades industriais.

    Diante de inúmeros obstáculos e dificuldades de caráter técnico-financeiro e, na busca de esquemas de tratamento que assegurem potabilidade da água, diferentes comunidades do Vale do Jequitinhonha e do Mucuri, vêm sistematicamente, procurado alternativas que busquem a eliminação dos microrganismos patogênicos existentes na água. Para tal, como medida de desinfecção, tais comunidades têm como hábito expor a água não tratada em garrafas PET transparentes à luz solar, durante oito horas, objetivando torná-la própria para consumo humano. Contudo, existem dúvidas quanto a origem de tal hábito e, principalmente, não são encontrados estudos sobre à eficiência de tal prática como agente desinfetante. Esta carência evidencia a necessidade de melhor compreenderem alternativas que assegurem à população do Vale do Jequitinhonha e do Mucuri, condições de vida mais digna e justa. Portanto, este estudo espera contribuir com dados científicos sobre a real eficiência dessa prática.

 

Objetivos

    Avaliar a eficiência da descontaminação microbiana de águas para uso humano pelo seu acondicionamento em garrafas PET transparentes e exposição a luz solar.